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Quando a governança não decide, ela encena

Em um conselho consultivo recém-criado de uma empresa familiar, tudo parecia funcionar bem demais. As reuniões eram organizadas, o clima era cordial, o consenso surgia rápido.

Ainda assim, na reunião seguinte, nada tinha mudado.

Os temas estruturantes estavam sempre na pauta — governança, estratégia, sucessão, profissionalização — mas nunca atravessavam o limite da conversa confortável. As decisões difíceis não chegavam a ser tomadas. As renúncias necessárias eram sistematicamente adiadas.

Lembro de sair de algumas dessas reuniões com uma sensação incômoda: a governança existia formalmente, mas não governava de fato.

O fundador não participava do conselho. À mesa estavam seus herdeiros e executivos. Em teoria, o colegiado tinha autonomia para definir pautas, estabelecer rito e ritmo, organizar informações e discutir o futuro do negócio.

Na prática, porém, o conselho orbitava um objetivo central que vinha de fora da sala. As demandas eram recorrentes, alinhadas a um interesse específico, mas desconectadas do desenvolvimento estrutural da empresa, da sucessão e do amadurecimento das pessoas.

Falava-se em sucessão. Mas a sucessão não produzia escolhas. Falava-se em profissionalização. Mas ela não exigia mudanças reais.

Durante cerca de um ano, tentamos avançar na construção dos instrumentos de governança, na evolução do modelo de gestão, na definição de missão, visão e valores, no planejamento estratégico e na visão de longo prazo.

Nada ganhava tração…A harmonia era excessiva. O consenso vinha rápido demais.
O desconforto era sistematicamente evitado.

Foi a partir de experiências como essa que consolidei um princípio que carrego comigo até hoje:

Governança sem decisão é teatro institucional.

Quando decisões difíceis são adiadas em nome da boa convivência, o conselho deixa de cumprir sua função essencial: proteger o futuro da organização. A governança passa a organizar conversas, mas evita atravessar conflitos. Produz consenso, mas não gera direção.

Esse princípio, nascido da prática e do incômodo vivido, encontrou no CELINT – Centro de Estudos em Liderança e Governança Integrais um espaço natural de aprofundamento. É aqui que reflexões como essa deixam de ser apenas aprendizados individuais e passam a ser debatidas, tensionadas e transformadas em método e prática consciente.

A governança construtivista que promovemos não busca conforto coletivo. Ela busca clareza estratégica. E isso exige fricção, coragem e maturidade institucional para sustentar conversas que muitos preferem evitar.

Por isso, pergunto a vocês:
Que decisão o conselho, que você participa, tomou que realmente mudou o curso da empresa?

Quando essa resposta não vem, não se trata de falta de técnica. Trata-se, quase sempre, de excesso de anestesia.
Porque governança viva não se mede pelo clima da reunião. Se mede pelas decisões que permanecem depois dela.

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